O meu filho cai muito: é apenas distração?
Quando uma criança cai muito, bate em pessoas ou parece desajeitada, a causa pode não ser desatenção. A integração entre visão, sistema vestibular e propriocepção explica como o corpo se orienta no espaço.
Filipa Teixeira — Terapeuta Ocupacional
Janela dos Afetos
- Quedas recorrentes e «encontrões» podem resultar de desafios no processamento sensorial e não de distração.
- A visão, a propriocepção e o sistema vestibular atuam em equipa contínua para manter o equilíbrio.
- Na hiporresponsividade, a criança pode procurar impacto físico para conseguir registar o movimento do próprio corpo.
- A avaliação de Terapia Ocupacional ajuda a compreender o perfil sensorial único de cada criança sem necessidade de diagnóstico prévio.
Já todos ouvimos frases como «Ele cai só porque é distraído» ou «Se ele olhasse mais para o chão não caía». Durante as primeiras sessões de avaliação também é uma frase comum entre os discursos dos pais e professores. A verdade é que a distração pode não ser a causa para as quedas ou para os «encontrões». A resposta pode estar nos sentidos da sua criança!
Porque é que isto acontece?
Os sentidos visão, propriocepção e vestibular atuam em equipa para mantermos o equilíbrio! Tal como descrito na imagem abaixo, a visão (recebe informações sobre as distâncias e os obstáculos), a propriocepção (recebe informação das articulações e dos músculos) e o sistema vestibular (recebe informação sobre a gravidade, a velocidade e as mudanças de posição) trabalham em conjunto para manter o equilíbrio.
Visão, propriocepção e sistema vestibular
A visão indica onde estão os obstáculos e avalia as distâncias relativas no ambiente envolvente. A propriocepção atua como o nosso «GPS interno», informando a posição do corpo e a força necessária em cada movimento. O sistema vestibular, no ouvido interno, avisa sobre a gravidade e as mudanças de posição da cabeça.

Hiporresponsividade e hiperresponsividade
Por um lado, do ponto de vista da Terapia Ocupacional quando o sistema vestibular «regista pouco» o movimento descrevemos como hiporresponsividade vestibular, ou seja, a criança tende a procurar uma maior quantidade e intensidade de estímulos para «sentir que está a mover». Quando o oposto acontece surge a insegurança gravitacional, ou seja, o corpo «regista o movimento como uma ameaça» e a criança tende a evitar escadas, terrenos irregulares, entre outros exemplos.
Por outro lado, as dificuldades podem persistir no sistema proprioceptivo, ou seja, no nosso «GPS interno». Vamos imaginar um carro com uma avaria no seu GPS que precisa de mais energia para conseguir chegar ao seu destino final!
Na hiporresponsividade proprioceptiva, a criança recorre mais ao sistema visual para localizar os segmentos do seu corpo. Isto explica movimentos bruscos, quedas e até dificuldade em ajustar a pressão ao escrever ou ao pegar em objetos frágeis. É também esta hiporresponsividade que leva muitas destas crianças a procurar ativamente mais input proprioceptivo como por exemplo encostar-se com força às pessoas e às paredes, morder objetos, saltar repetidamente ou apertar-se em espaços pequenos, porque o sistema precisa de mais intensidade de estímulo para gerar uma resposta.
Na hiperresponsividade proprioceptiva, o padrão inverte-se: a criança tende a evitar atividades de alto impacto ou de resistência (empurrar, puxar, saltar com força), prefere movimentos mais contidos e pode reagir com desconforto a texturas ou pressões que envolvam esforço muscular, como amassar plasticina ou vestir roupa mais justa. Esta forma é menos associada a quedas frequentes, mas vale a pena referir para não simplificar a questão a um único perfil.
Exemplos de sinais de alerta
Quando a criança cai com frequência, esbarra em pessoas ou manifesta hesitações no movimento, é útil observar se ocorrem com regularidade alguns dos seguintes comportamentos:
- Quedas até mesmo sem obstáculos ou em terrenos lisos;
- Esbarra em pessoas e objetos ou procura impacto (atirar-se ao chão, empurrar-se contra as paredes);
- Usa força desajustada aos movimentos (aperta demasiado ou deixa cair objetos com facilidade);
- Cansa-se com mais facilidade em atividades motoras simples;
- Evita escorregas, baloiços ou escadas, ou hesita antes de descer ou procura girar, saltar e correr sem parar;
- Precisa de olhar constantemente para os pés para se orientar;
- Faz muita pressão no lápis ou tende a rasgar as folhas do caderno a escrever.
Nota final
Nenhum sinal isolado significa alguma coisa por si só. Na avaliação avaliamos a frequência, a persistência ao longo do tempo e a forma como estes sinais se combinam entre si. Não é preciso esperar que a situação se agrave, nem que apareça um diagnóstico, para pedir uma opinião profissional.
Autoria
Filipa Teixeira — Terapeuta Ocupacional
Conclusão e Reflexão
Compreender como a criança perceciona o próprio corpo e o espaço envolvente é o primeiro passo para apoiar o seu desenvolvimento motor de forma segura e respeitadora.
Gostaria de falar sobre este tema com um terapeuta?
A Janela dos Afetos está disponível para apoiar com consultas presenciais em Matosinhos ou online.